Ressonar alto, acordar cansado mesmo depois de uma noite inteira na cama, sentir sono a meio da tarde sem motivo aparente. São sinais que muitas famílias desvalorizam, mas que podem indicar apneia do sono, uma doença muito mais comum e mais séria do que a maioria das pessoas imagina. Neste artigo, explicamos o que é a apneia do sono, os seus sintomas, causas, tipos e as opções de tratamento disponíveis, incluindo o que fazer quando o problema afeta uma pessoa idosa.
O que é a apneia do sono?
A apneia do sono é uma doença caracterizada por pausas repetidas na respiração durante a noite, causadas pelo colapso total ou parcial das vias respiratórias superiores. Cada pausa pode durar dez segundos ou mais e, nos casos mais graves, repete-se dezenas de vezes por hora, interrompendo o sono profundo sem que a pessoa se aperceba. Segundo a Sociedade Portuguesa de Pneumologia, a doença afeta de forma significativa a população adulta portuguesa, sendo a prevalência mais elevada em idade mais avançada.
O que acontece durante uma apneia do sono?
Durante uma apneia do sono, os tecidos moles da garganta relaxam e colapsam sobre as vias respiratórias, bloqueando total ou parcialmente a passagem do ar. O cérebro deteta a queda dos níveis de oxigénio no sangue e desperta a pessoa, por vezes apenas por breves segundos, para restabelecer a respiração, um episódio que se repete ao longo da noite sem que a pessoa se lembre dele na manhã seguinte. Este ciclo de asfixia e despertar impede que o sono profundo e reparador seja atingido, mesmo que a pessoa passe oito horas na cama.
Quais são os principais tipos de apneia do sono?
Existem três tipos principais de apneia do sono:
- Apneia obstrutiva do sono (SAOS): a mais comum, ocorre quando os tecidos da garganta colapsam e bloqueiam fisicamente a via aérea, apesar do esforço respiratório continuar;
- Apneia central do sono: mais rara, acontece quando o cérebro deixa de enviar os sinais corretos aos músculos responsáveis pela respiração, mesmo com a via aérea desobstruída, sendo frequentemente associada a doenças cardíacas como a insuficiência cardíaca;
- Apneia do sono mista (ou complexa): combina características dos dois tipos anteriores, começando geralmente como central e evoluindo para obstrutiva.
Quais são os sintomas da apneia do sono?
Os sintomas da apneia do sono manifestam-se tanto durante a noite como ao longo do dia, e é frequente que seja o companheiro ou companheira de cama quem primeiro identifica os sinais de alerta. Os sintomas mais comuns incluem:
- Ressonar alto e persistente, com pausas seguidas de engasgos ou sufocos;
- Despertares súbitos com sensação de falta de ar;
- Boca seca ou dor de garganta ao acordar;
- Dor de cabeça matinal;
- Sonolência excessiva durante o dia, mesmo após uma noite aparentemente completa de sono;
- Dificuldade de concentração, irritabilidade e alterações de humor.
Como saber se tenho apneia do sono?
Para saber se tem apneia do sono, deve prestar atenção aos sinais que surgem tanto durante a noite (ressonar alto, pausas respiratórias observadas por terceiros, despertares com falta de ar) como durante o dia (sonolência persistente, dores de cabeça matinais, dificuldade de concentração). Como a maioria destes sinais ocorre durante o sono, é frequente que seja outra pessoa a notar primeiro o problema. Se reconhece vários destes sintomas, o passo seguinte é procurar o médico de família ou um pneumologista para avaliar a necessidade de um estudo do sono.
A apneia do sono causa sonolência e cansaço durante o dia?
Sim, a apneia do sono causa sonolência e cansaço durante o dia, mesmo quando a pessoa dorme o número de horas recomendado. Isto acontece porque as interrupções repetidas da respiração fragmentam o sono e impedem que o corpo atinja as fases mais profundas e reparadoras. A pessoa pode despertar dezenas ou centenas de vezes por noite sem se lembrar, e ainda assim sentir-se completamente exausta no dia seguinte. Este cansaço crónico está diretamente ligado à importância de um sono de qualidade, e aumenta o risco de acidentes, incluindo ao volante.
O ressonar alto é sinal de apneia do sono?
Sim, o ressonar alto é um dos sinais mais associados à apneia do sono, sobretudo quando é interrompido por pausas silenciosas seguidas de um engasgo ou suspiro brusco. No entanto, nem toda a gente que ressona tem apneia do sono. O ronco simples, sem pausas respiratórias nem quedas de oxigénio, não é considerado uma doença. A distinção entre ressonar simples e apneia do sono só pode ser confirmada através de um estudo do sono.
O que causa a apneia do sono?
A apneia do sono resulta, na maioria dos casos, do estreitamento ou colapso das vias respiratórias superiores durante o sono, quando os músculos da garganta relaxam mais do que o normal. Este estreitamento pode ser causado por fatores anatómicos, hábitos de vida ou outras condições de saúde que, isoladamente ou em conjunto, aumentam a probabilidade de desenvolver a doença.
Quais são os fatores de risco da apneia do sono?
Os principais fatores de risco da apneia do sono são:
- Excesso de peso e obesidade, que aumentam o tecido mole à volta da via aérea;
- Circunferência do pescoço aumentada;
- Idade avançada, devido à perda de tónus muscular na garganta;
- Sexo masculino, embora o risco nas mulheres aumente significativamente após a menopausa;
- Amígdalas ou adenoides aumentadas;
- Alterações craniofaciais, como um maxilar recuado;
- Consumo de álcool, tabaco e uso de sedativos ou relaxantes musculares;
- Histórico familiar de apneia do sono;
- Obstrução nasal crónica.
O excesso de peso aumenta o risco de apneia do sono?
Sim, o excesso de peso aumenta significativamente o risco de apneia do sono. O tecido adiposo acumulado à volta do pescoço e da garganta estreita a via aérea superior, tornando mais provável o seu colapso durante o sono. Por esta razão, a obesidade é um dos fatores de risco mais determinantes da doença, e a perda de peso é frequentemente uma das primeiras recomendações terapêuticas, especialmente em casos ligeiros a moderados.
Quais são os riscos da apneia do sono?
Quando não é tratada, a apneia do sono não se limita a prejudicar a qualidade do sono. Tem impacto direto em vários sistemas do organismo, com consequências que se agravam ao longo dos anos. As quedas repetidas dos níveis de oxigénio no sangue e os despertares constantes colocam o corpo sob um estado permanente de alerta que sobrecarrega o sistema cardiovascular e o sistema nervoso.
A apneia do sono é perigosa?
Sim, a apneia do sono não tratada é perigosa, sobretudo nas formas moderadas a graves. Além do impacto imediato na qualidade de vida (fadiga crónica, dificuldade de concentração e maior risco de acidentes rodoviários provocados por sonolência ao volante), a apneia do sono está associada, a longo prazo, a um risco acrescido de doenças cardiovasculares, acidente vascular cerebral (AVC) e diabetes tipo 2. Por isso, mesmo que os sintomas pareçam suportáveis no dia a dia, o diagnóstico e o tratamento atempados são importantes.
A apneia do sono pode causar problemas cardiovasculares?
Sim, a apneia do sono pode causar problemas cardiovasculares. As quedas repetidas de oxigénio no sangue ativam o sistema nervoso e provocam picos de tensão arterial ao longo da noite, o que contribui para hipertensão arterial persistente, arritmias cardíacas e um risco aumentado de enfarte do miocárdio e AVC. A apneia central do sono, em particular, está frequentemente associada à insuficiência cardíaca, e este risco soma-se a outros fatores cardiovasculares já conhecidos, como o colesterol alto.
A apneia do sono pode afetar a memória e a concentração?
Sim, a apneia do sono pode afetar a memória e a concentração. A fragmentação constante do sono impede que o cérebro complete as fases profundas de descanso, essenciais para a consolidação da memória e para os processos naturais de reparação celular durante a noite, uma relação que também é explorada no nosso artigo sobre telómeros e envelhecimento celular. Estudos recentes têm associado a apneia do sono não tratada a um risco aumentado de declínio cognitivo a longo prazo, o que torna o diagnóstico precoce particularmente relevante em pessoas mais velhas.
Como é diagnosticada a apneia do sono?
O diagnóstico da apneia do sono começa geralmente numa consulta de medicina geral e familiar ou de pneumologia, onde o médico avalia os sintomas, o histórico clínico e os fatores de risco. Quando existe suspeita fundamentada, o passo seguinte é a realização de um exame do sono, que permite confirmar o diagnóstico e determinar a gravidade da doença.
Como saber se preciso de um exame do sono?
Deve considerar a realização de um exame do sono se apresentar sintomas como ressonar alto com pausas respiratórias observadas por outra pessoa, sonolência diurna excessiva, despertares com sensação de sufoco, ou se pertencer a um grupo de risco, como excesso de peso, hipertensão arterial não controlada ou histórico familiar da doença. O médico de família ou um pneumologista é quem deve avaliar clinicamente estes sinais e decidir se o exame está indicado.
O que é um estudo do sono?
Um estudo do sono, ou polissonografia, é um exame que regista, durante uma noite, vários parâmetros fisiológicos como a respiração, os níveis de oxigénio no sangue, a atividade cerebral, o ritmo cardíaco e os movimentos corporais. Segundo o MSD Manuals, este exame permite calcular o Índice de Apneia-Hipopneia (IAH), que corresponde ao número de pausas respiratórias por hora de sono e determina a gravidade da doença, como se pode ver na tabela seguinte:
| Gravidade | IAH (eventos por hora de sono) |
| Normal | Menos de 5 |
| Ligeira | Entre 5 e 15 |
| Moderada | Entre 15 e 30 |
| Grave | Mais de 30 |
Existem também exames simplificados, realizados em casa com equipamento portátil, que podem ser suficientes para confirmar o diagnóstico em casos com sintomas claros e sem outras complicações associadas.
Como tratar a apneia do sono?
O tratamento da apneia do sono é definido com base na gravidade da doença, nas causas subjacentes e nas características de cada pessoa, podendo combinar mudanças no estilo de vida, dispositivos médicos e, em casos específicos, cirurgia.
A apneia do sono tem cura?
Não, a apneia do sono não tem cura na maioria dos casos, mas tem tratamento eficaz que permite controlar os sintomas e reduzir significativamente os riscos associados. Em situações específicas (como quando a causa está associada ao excesso de peso, a amígdalas aumentadas ou a alterações anatómicas corrigíveis cirurgicamente), é possível eliminar ou reduzir de forma duradoura a apneia do sono ao tratar a causa subjacente. Na maioria dos casos, no entanto, o tratamento é contínuo e visa manter a via aérea desobstruída durante o sono.
O que é o CPAP e como funciona?
O CPAP (do inglês Continuous Positive Airway Pressure, ou pressão positiva contínua nas vias aéreas) é o tratamento padrão-ouro para a apneia do sono moderada a grave, segundo a CUF. Trata-se de um dispositivo que, através de uma máscara nasal ou facial, fornece um fluxo constante de ar sob pressão, mantendo a via aérea aberta durante toda a noite e impedindo o seu colapso. Embora exija um período de adaptação, o CPAP costuma trazer melhorias visíveis já nas primeiras semanas de uso, tanto na qualidade do sono como na sonolência diurna.
É possível tratar a apneia do sono sem CPAP?
Sim, é possível tratar a apneia do sono sem CPAP, sobretudo em casos ligeiros a moderados ou quando a pessoa não tolera o dispositivo. As alternativas incluem:
- Dispositivos de avanço mandibular, que reposicionam a mandíbula e a língua para manter a via aérea aberta;
- Cirurgia, indicada em casos com alterações anatómicas específicas, como amígdalas muito aumentadas ou obstrução nasal significativa;
- Perda de peso, quando o excesso de peso é um fator determinante;
- Terapia posicional, para pessoas cuja apneia ocorre predominantemente quando dormem de costas.
A escolha do tratamento deve ser sempre feita em conjunto com o médico, com base na gravidade da doença e nas características anatómicas de cada pessoa.
Como melhorar a apneia do sono?
Para além do tratamento médico, existem hábitos que ajudam a reduzir a gravidade da apneia do sono e a melhorar a qualidade geral do sono, funcionando como complemento, nunca substituto, do acompanhamento clínico.
Perder peso pode ajudar a reduzir a apneia do sono?
Sim, perder peso pode ajudar a reduzir a apneia do sono, sobretudo em pessoas com excesso de peso ou obesidade. Uma redução de cerca de 10% do peso corporal pode diminuir significativamente o número de eventos respiratórios por hora de sono, já que reduz o tecido mole à volta da via aérea superior. A atividade física regular, mesmo quando adaptada a pessoas mais velhas, tal como descrevemos no nosso artigo sobre exercícios para idosos, é um aliado importante neste processo.
Que hábitos podem melhorar a qualidade do sono?
Vários hábitos simples podem melhorar a qualidade do sono e reduzir os sintomas da apneia:
- Dormir de lado em vez de de costas, para evitar que a língua e os tecidos moles bloqueiem a via aérea;
- Evitar álcool e sedativos nas horas antes de deitar, pois relaxam excessivamente os músculos da garganta;
- Manter um horário de sono regular, deitando e levantando sempre à mesma hora;
- Evitar refeições pesadas perto da hora de dormir;
- Tratar a obstrução nasal, quando presente, para facilitar a respiração noturna.
Manter um horário regular está também diretamente ligado ao ciclo circadiano, que regula naturalmente os períodos de sono e vigília.
Como a apneia do sono afeta os idosos?
A apneia do sono é particularmente frequente na terceira idade, com uma prevalência que aumenta de forma acentuada a partir dos 65 anos devido à perda natural de tónus muscular na garganta, ao aumento do peso corporal e à maior prevalência de doenças cardiovasculares associadas. Nos idosos, os sintomas nem sempre são tão evidentes como no adulto mais jovem, e a sonolência diurna é muitas vezes desvalorizada ou atribuída ao próprio envelhecimento, o que atrasa o diagnóstico e aumenta o risco de quedas em idosos e de perda de autonomia.
Porque é importante diagnosticar e tratar a apneia do sono nos idosos?
É importante diagnosticar e tratar a apneia do sono nos idosos porque a doença não tratada agrava riscos que já são mais elevados nesta fase da vida: aumenta a probabilidade de quedas devido à sonolência diurna, contribui para o declínio cognitivo e pode agravar outras condições, como a hipertensão arterial e a depressão em idosos. Um diagnóstico atempado, seguido de um tratamento adequado (muitas vezes com CPAP), pode melhorar significativamente a energia diária, a estabilidade emocional e a segurança do idoso em casa.
Nestas situações, o acompanhamento próximo de um cuidador faz diferença: ajuda a garantir a adesão ao tratamento, a monitorizar os sintomas noturnos e a manter uma rotina de sono mais estável e segura. Se tem um familiar idoso com sintomas de apneia do sono ou outras dificuldades relacionadas com o sono, o apoio domiciliário da Caring pode ajudar a criar essa rotina e a acompanhar de perto a sua saúde, no conforto da própria casa.