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Publicado em 6 Jul, 2026

Automedicação: O que parece uma solução rápida pode ser um risco real

Saiba o que é a automedicação e quais os seus riscos. Conheça os medicamentos mais perigosos de tomar sem receita, os grupos de maior risco e as regras para uma automedicação responsável.

Há um padrão reconhecível em quase todas as casas portuguesas. Aparece uma dor de cabeça e vai-se ao armário das mezinhas. A tosse não passa e recorda-se que sobrou xarope da última vez. As costas doem e há ali uns comprimidos que resultaram tão bem há uns meses. A automedicação faz parte da cultura de saúde portuguesa de tal forma que muitas vezes já nem é reconhecida como tal.

Um relatório da Nova SBE revelou que mais de metade dos portugueses recorreu à automedicação em 2025, incluindo em situações de saúde mental. A prevalência de automedicação na população adulta portuguesa situa-se entre 21,5% e 31,6%, dependendo dos estudos. E os investigadores alertam especificamente para o risco de medicamentos inadequados em casa, sobretudo antibióticos, e para a ausência de normas claras sobre o que é e o que não é aceitável fazer por conta própria.

Este artigo existe para ajudar a traçar essa linha. A automedicação não é sempre errada, mas tem regras, limites e riscos que vale a pena conhecer antes de abrir o próximo frasco.

 

 

O que é a automedicação?

A automedicação é a utilização de medicamentos por iniciativa própria, sem prescrição ou supervisão médica, para tratar sintomas ou doenças. Segundo a Ordem dos Farmacêuticos, qualquer medicamento, mesmo os que não exigem receita médica, pode ser prejudicial em determinadas situações se não for usado corretamente. A automedicação responsável existe e é reconhecida pela lei portuguesa, mas tem limites claros que muitas pessoas desconhecem.

A automedicação é legal em Portugal?

Sim, parcialmente. A automedicação é legal em Portugal quando envolve medicamentos não sujeitos a receita médica (MNSRM), vulgarmente designados como medicamentos de venda livre. Estes medicamentos foram avaliados pelas autoridades competentes como seguros para uso sem prescrição, desde que usados de acordo com as indicações e nas situações específicas para as quais foram aprovados. A legislação portuguesa define explicitamente as situações que permitem a automedicação, que incluem sintomas ligeiros e bem identificados como dores de cabeça, constipações, azia ou picadas de insetos.

A automedicação com medicamentos sujeitos a receita médica (MSRM), mesmo que alguém os tenha em casa de receitas anteriores, é legalmente desaconselhada e clinicamente arriscada. Usar antibióticos que sobraram, por exemplo, é uma prática comum em Portugal e uma das que mais preocupa as autoridades de saúde.

Qual a diferença entre medicamentos com e sem receita médica?

 

Medicamentos sem receita (MNSRM) Medicamentos com receita (MSRM)
Podem ser adquiridos livremente em farmácias e parafarmácias Só podem ser adquiridos mediante receita médica válida
Aprovados para uso autónomo em situações de saúde ligeiras e bem definidas Requerem diagnóstico médico e supervisão para uso seguro
Exemplos: paracetamol, ibuprofeno em dose standard, antiácidos, anti-histamínicos de venda livre Exemplos: antibióticos, ansiolíticos, opióides, corticosteroides, antidiabéticos
Risco de interações e efeitos secundários é menor mas não inexistente Risco de dano significativo sem supervisão médica adequada
O farmacêutico pode e deve aconselhar sobre o uso correto O uso sem receita é clinicamente e legalmente desaconselhado

 

Quantos portugueses se automedicam?

A automedicação em Portugal é muito mais prevalente do que a maioria das pessoas assume. Os dados disponíveis são consistentes e preocupantes: a prevalência na população adulta situa-se entre 21,5% e 31,6%, com um estudo específico em Lisboa e Porto a registar 26,2% entre utentes de farmácias comunitárias. Um relatório recente da Nova SBE indica que mais de metade dos portugueses inquiridos recorreu à automedicação em 2025, incluindo para problemas de saúde mental. Os medicamentos mais frequentemente usados de forma autónoma são analgésicos, anti-inflamatórios, antigripais e, de forma muito preocupante, antibióticos.

 

Quais os riscos da automedicação?

Os riscos da automedicação são reais, variados e frequentemente subestimados. Como alerta o Grupo H Saúde, um mesmo medicamento, na mesma dose, ao ser tomado pelo mesmo período de tempo por duas pessoas com diagnósticos similares, pode ter resultados muito diferentes. O que resultou para um organismo pode não resultar noutro e pode mesmo causar dano num terceiro. Esta variabilidade individual é precisamente o que torna a automedicação sem aconselhamento profissional um comportamento de risco.

A automedicação pode mascarar doenças graves?

Sim. Este é um dos riscos mais sérios e menos visíveis da automedicação. Quando se tomam analgésicos ou anti-inflamatórios para aliviar uma dor sem perceber a sua causa, os sintomas podem melhorar temporariamente enquanto a doença subjacente progride sem diagnóstico. Uma dor abdominal que cede com ibuprofeno pode estar a mascarar uma apendicite, uma úlcera péptica ou outra situação que requer intervenção médica urgente. O alívio sintomático sem diagnóstico pode atrasar o tratamento correto para além do ponto em que seria mais eficaz.

O que são interações medicamentosas e porque são perigosas?

As interações medicamentosas ocorrem quando dois ou mais medicamentos, tomados em simultâneo, se influenciam mutuamente de forma a alterar os seus efeitos, seja potenciando-os de forma perigosa, seja anulando a eficácia de um deles. Estas interações são particularmente perigosas na automedicação porque a pessoa que se automedica frequentemente desconhece quais os medicamentos que está a tomar e quais as suas possíveis interações com a medicação prescrita.

Alguns exemplos comuns e perigosos: o ibuprofeno tomado em conjunto com anticoagulantes aumenta drasticamente o risco de hemorragia; a aspirina em simultâneo com alguns antidepressivos pode causar sangramento gástrico; o paracetamol em doses cumulativas excessivas, fácil de atingir quando se tomam vários produtos que o contêm em simultâneo, causa lesão hepática grave.

A automedicação pode causar dependência?

Sim, em determinadas circunstâncias. Alguns medicamentos de venda livre têm potencial de habituação ou dependência quando usados de forma prolongada ou em doses superiores às recomendadas. Os descongestionantes nasais em spray, por exemplo, causam frequentemente dependência de rebote: o nariz piora quando o spray é suspenso, levando a um uso cada vez mais frequente. Alguns analgésicos com codeína, vendidos sem receita em certas formulações, têm potencial de dependência opióide. Sedativos e auxiliares do sono de venda livre podem também criar padrões de uso problemáticos.

Quais os medicamentos mais perigosos para se automedicar?

Alguns medicamentos apresentam um risco particularmente elevado quando usados sem supervisão médica. Os mais relevantes na prática quotidiana são os seguintes:

 

Medicamento / Classe Risco específico da automedicação
Antibióticos Uso inadequado favorece resistências bacterianas; tratamentos incompletos não erradicam a infeção; podem mascarar infeções que requerem tratamento diferente
Anti-inflamatórios (ibuprofeno, naproxeno) Risco de úlcera e hemorragia gastrointestinal; contraindicados em insuficiência renal, cardíaca e em gravidez; interações com anticoagulantes
Paracetamol em excesso Hepatotoxicidade grave com doses cumulativas elevadas; risco aumentado em pessoas que bebem álcool ou têm doença hepática
Corticosteroides (sobras de receitas anteriores) Supressão imunitária, aumento da glicémia, osteoporose com uso prolongado não supervisionado
Ansiolíticos e indutores do sono Dependência física e psicológica; risco de queda nos idosos; depressão respiratória em doses elevadas
Anticoagulantes e antiagregantes Risco hemorrágico grave; interações com muitos medicamentos de venda livre incluindo aspirina e ibuprofeno

 

Quem corre maior risco com a automedicação?

Embora a automedicação seja transversal a toda a população, existem grupos que apresentam vulnerabilidades específicas que amplificam os riscos.

Porque é que os idosos são mais vulneráveis à automedicação?

Os idosos são o grupo de maior risco em contexto de automedicação por várias razões que se somam. A maioria toma vários medicamentos prescritos em simultâneo, o que multiplica exponencialmente as possibilidades de interação com medicamentos de venda livre. O metabolismo hepático e renal está frequentemente reduzido, o que altera a forma como o organismo processa os medicamentos e aumenta o risco de toxicidade mesmo com doses standard. A memória pode falhar, levando a tomas duplas acidentais. E a perceção da gravidade dos sintomas pode estar alterada, seja pela minimização da dor por algum grau de declínio cognitivo, seja pela aceitação fatalista de sintomas como ‘coisas normais da idade’. Como exploramos no artigo sobre polimedicação nos idosos, gerir múltiplos medicamentos com segurança já é complexo mesmo sob supervisão médica, e torna-se muito mais arriscado quando a esse esquema se somam medicamentos por conta própria.

A automedicação é mais perigosa em crianças?

Sim. As crianças são um grupo de alto risco em contexto de automedicação porque a sua farmacocinética é fundamentalmente diferente da do adulto. As doses calculadas para adultos podem ser tóxicas para uma criança do mesmo peso, e vice-versa. Alguns medicamentos seguros em adultos são contraindicados em crianças, como a aspirina, que pode causar síndrome de Reye, uma condição rara mas potencialmente fatal. A automedicação em crianças deve ser sempre validada por um médico ou farmacêutico, mesmo quando envolve medicamentos de venda livre.

Existem outros grupos com risco aumentado?

Sim. Para além dos idosos e das crianças, existem outros grupos que devem ser especialmente cautelosos com a automedicação. As grávidas e as mulheres a amamentar estão nesta categoria, porque muitos medicamentos de venda livre atravessam a placenta ou passam para o leite materno. Pessoas com doenças crónicas como diabetes, insuficiência renal, hepática ou cardíaca têm uma tolerância muito menor às interações e aos efeitos secundários. Pessoas que tomam anticoagulantes, imunossupressores ou quimioterapia devem verificar qualquer medicamento de venda livre com o médico ou farmacêutico antes de o tomar.

 

Em que situações é aceitável automedicar-se?

Sim, existem situações em que a automedicação responsável é aceitável e reconhecida pela legislação portuguesa. A chave está em distinguir claramente os casos em que é razoável tratar os próprios sintomas dos casos que requerem avaliação médica.

Que situações permitem a automedicação responsável?

A automedicação é geralmente aceitável nas seguintes situações, desde que os sintomas sejam leves, de curta duração e bem identificados:

  • Dor de cabeça tensional ocasional sem outros sintomas associados;
  • Constipação comum com sintomas nasais, tosse ligeira ou mal-estar geral;
  • Azia e refluxo ligeiro sem história de úlcera ou uso de anticoagulantes;
  • Diarreia ligeira em adulto saudável, sem sangue nem febre alta;
  • Picadas de insetos ou pequenas reações alérgicas cutâneas localizadas;
  • Dor muscular ligeira após esforço físico, sem história de doença renal ou cardíaca;
  • Contracetivos de emergência ou métodos contracetivos de barreira;
  • Tratamento de suporte para deixar de fumar, como substitutos de nicotina.

Que regras seguir para uma automedicação mais segura?

Quando a situação permite a automedicação, há um conjunto de princípios que reduzem significativamente o risco. A automedicação mais segura é aquela que respeita as seguintes regras:

  • Ler sempre o folheto informativo na íntegra, incluindo contraindicações, interações e posologia;
  • Não exceder a dose recomendada nem o período de uso indicado;
  • Verificar se o medicamento interage com outros que esteja a tomar habitualmente;
  • Não usar medicamentos sujeitos a receita médica sem prescrição, mesmo que sobrem de tratamentos anteriores;
  • Não partilhar medicamentos prescritos com outras pessoas;
  • Confirmar o prazo de validade antes de usar medicamentos que estejam guardados em casa;
  • Adquirir medicamentos apenas em farmácias físicas ou em sites registados no INFARMED;
  • Procurar aconselhamento farmacêutico quando existir qualquer dúvida;
  • Suspender o medicamento e consultar o médico se os sintomas não melhorarem em 48 a 72 horas ou se surgirem novos sintomas.

Qual o papel do farmacêutico na automedicação responsável?

O farmacêutico é o profissional de saúde mais acessível para orientar a automedicação de forma responsável. Tem formação específica em farmacologia, conhece as interações entre medicamentos e pode avaliar se o perfil de sintomas apresentado é compatível com automedicação ou se justifica referenciação médica. O INFARMED e a Ordem dos Farmacêuticos são claros: em caso de dúvida, o farmacêutico deve ser sempre o primeiro ponto de contacto antes de qualquer decisão de automedicação. Esta consulta é gratuita, não requer marcação e está disponível em qualquer farmácia do país.

 

Quando procurar o médico em vez de se automedicar?

Saber reconhecer os sinais que indicam que a situação ultrapassa o âmbito da automedicação é tão importante quanto saber quando é aceitável tratar os próprios sintomas.

Que sintomas nunca devem ser automedicados?

Existem situações em que procurar avaliação médica é sempre a decisão correta, independentemente de quão familiares os sintomas pareçam. Alguns exemplos importantes de situações que nunca devem ser automedicadas são os seguintes:

  • Dor no peito, falta de ar súbita ou palpitações irregulares;
  • Dor de cabeça súbita e muito intensa, diferente de qualquer cefaleia anterior;
  • Febre alta persistente (acima de 39°C) ou febre em bebés abaixo dos 3 meses;
  • Sintomas que duram mais de 7 a 10 dias sem melhoria;
  • Sangue nas fezes, urina, vómito ou escarro;
  • Dor abdominal intensa ou progressiva;
  • Alteração súbita da consciência, confusão ou desorientação;
  • Qualquer sintoma grave num idoso, criança pequena, grávida ou pessoa com doença crónica;
  • Sintomas que pioram progressivamente em vez de melhorar.

Que perguntas fazer antes de tomar um medicamento por conta própria?

Antes de abrir qualquer medicamento sem receita, vale a pena parar uns momentos para fazer estas perguntas. São simples e podem evitar um erro com consequências sérias:

  • Conheço a causa dos meus sintomas ou estou apenas a tratar o que sinto?
  • Já tive estes sintomas antes e melhorei com este medicamento?
  • Este medicamento é adequado para a minha idade, estado de saúde e outros medicamentos que tomo?
  • Li as contraindicações e interações no folheto?
  • Se não melhorar em 48 a 72 horas, estou a contar procurar o médico?
  • Estou grávida, a amamentar, ou tenho alguma doença crónica que possa tornar este medicamento desaconselhável?

 

Automedicação nos idosos: um risco acrescido

A automedicação nos idosos é um tema que merece atenção especial porque combina todos os fatores de risco: maior consumo de medicamentos prescritos, maior vulnerabilidade às interações, alterações do metabolismo e, muitas vezes, uma tendência para minimizar sintomas ou para recorrer a soluções que ‘sempre resultaram’ sem considerar que o organismo mudou com a idade.

Porque é que os idosos se automedicam mais e com maior risco?

Os idosos automedicam-se por razões que são compreensíveis mas que, à luz dos riscos, merecem ser trabalhadas. A dificuldade de acesso ao médico, a resistência a incomodar, a normalização de certos sintomas como ‘coisas da idade’ e a cultura de reutilização de medicamentos que ‘resultaram antes’ são padrões frequentes. Ao mesmo tempo, as alterações biológicas do envelhecimento tornam os riscos desta prática muito superiores: o fígado e os rins eliminam os medicamentos mais lentamente, o que pode causar acumulação tóxica com doses que seriam seguras num adulto jovem.

A dor crónica, muito prevalente nos idosos, é uma das principais motivações para a automedicação. Anti-inflamatórios tomados regularmente sem supervisão, em pessoas com predisposição para úlcera ou com insuficiência renal, são uma das causas mais documentadas de hospitalizações evitáveis nesta faixa etária.

Como o apoio domiciliário pode ajudar a gerir a medicação dos idosos com segurança?

A presença regular de um cuidador profissional no domicílio é uma das formas mais eficazes de reduzir o risco de automedicação nos idosos. Um cuidador que acompanha o idoso diariamente conhece a sua medicação habitual, percebe quando surgem novos sintomas, pode garantir que a medicação prescrita é tomada corretamente e alerta a família ou o médico antes que o idoso tome decisões terapêuticas por conta própria.

A gestão da medicação, incluindo a organização de caixas semanais, o registo das tomas e a identificação de eventuais efeitos secundários preocupantes, é uma das componentes regulares do serviço de cuidados de saúde domiciliários da Caring. Para perceber como podemos apoiar o seu familiar na gestão segura da medicação e no acesso atempado a cuidados médicos, peça a sua estimativa personalizada.

 

O medicamento certo, na dose certa, com o acompanhamento certo

A automedicação não é intrinsecamente errada. É uma prática reconhecida e, em contexto adequado, útil e eficiente. O problema está na ausência de limites claros: na crença de que qualquer sintoma pode ser tratado em casa, de que sobras de receitas anteriores são sempre reutilizáveis, de que o que resultou para um familiar vai resultar para si.

Conhecer os limites da automedicação, saber quando parar e procurar ajuda profissional, e ter no farmacêutico um aliado acessível e gratuito para as dúvidas do dia a dia, são os comportamentos que tornam a automedicação uma prática mais segura para toda a família.

 

Nota: A informação apresentada neste artigo destina-se exclusivamente a fins informativos e educativos. Não substitui o aconselhamento médico ou farmacêutico personalizado. Em caso de dúvida sobre qualquer medicamento, consulte sempre o seu médico de família ou o farmacêutico.

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